I . canto um mar que nom possuo umhas águas que nom tenho rapariga que som de terra adentro mocinha da montanha montanhesa. deveria cantar fragas e veigas encostas e abas de montes pardos os cúmios que encirram horizontes domeados como bestas e rapados. deveria cantar o som do vento entremetido entre árvores e rochas e nom a aireja azul que arrinca as velas do cerne de si mesmas e das conchas. esse ar mareiro que canto esse mar que canto e desconheço. II. por decreto nos regalam a um mar inexistente um mar carregado de mofo de verdete algas abafantes //un mar// atrapado entre cimentos o oceano afogando os lentos peixes de topetadas em muros limitados sem espelhos. por decreto nos regalam a um mar e nom queremos porque nele os barcos apodrecem ao ver-se encostados na linha celeste que este mar é mar de achicadura sem espaço para a viagem descoberta. por decreto nos regalam a um mar e ficamos ancorados numha água ancorada en um val ancorado. o céu crava-se no fundo iluminando os molhados carvalhotes de antano que se derrubam demorados na escuma transparente que os envolve. III. memória habitada tempo findo das avós que contam de ti Carvalheira do Rei dona doutras idades quando eras o fogar a lareira a corte o alpendre e cresceches essa feira dia de santos cavalos gado polbeiros quando os moços mais garridos temiam entrar-te sem o sol do luar espessura medonhenta. velhinha que mirra e se desfaz deixando de seres ti para serdes vós carvalhos carvalhotes ergueitos com orgulho e sós presidindo esta agonia de lembranças sem porvir. [fresca terra que me nasceu a golpes de mar e areia crescendo-me cara o céu alçando-me forte e eterna. seme de todas as árvores som eu, carvalhos bidos azinheiras é a saiva que o antes me deu água mesta e mistureira.] que farei eu agora? que cantarei eu orfa de jogos e recordos de lugares aquelados aos meus sonhos? que vou fazer agora da minha infância do meu futuro? aonde levarei os filhos que nom terei? a que moínho se nom está? a que fentos cavernários? a que castrinho? a que passado se foi arrasado com escavadoras camions de cascalhos e apisoadoras de progresso? IV. ouh sim fala-nos do mar marinheiro de gavotas relingas gradicelas sargaços daquele pailebote branco do capitám abraçado ao búzio e o cachimbo para nom caermos enganados acreditando oceano o val profundo que por decreto nos regalam aqueles que o anegam e apontalam. |



