Memoria

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Faite seareiro

Somos parte de



Canto do encoro

Publicado a 31/01/2010 02:44 por A. C. Vagalumes Tabeirós-Terra de Montes   [ atualizado a 31/01/2010 02:54 ]
I .
canto um mar
que nom possuo
umhas águas que nom tenho
rapariga que som de terra adentro
mocinha da montanha montanhesa.

deveria cantar
fragas e veigas
encostas e abas de montes pardos
os cúmios que encirram horizontes
domeados como bestas e rapados.

deveria cantar
o som do vento
entremetido entre árvores e rochas
e nom a aireja azul que arrinca as velas
do cerne de si mesmas e das conchas.

esse ar mareiro
que canto
esse mar que canto e desconheço.

II.

por decreto nos regalam
a um mar inexistente
um mar carregado de mofo
de verdete
algas abafantes

//un mar//


atrapado entre cimentos
o oceano
afogando os lentos peixes
de topetadas em muros limitados
sem espelhos.

por decreto nos regalam
a um mar
e nom queremos
porque nele os barcos
apodrecem
ao ver-se encostados
na linha celeste


que este mar
é mar de achicadura
sem espaço para a viagem
descoberta.



por decreto nos regalam
a um mar
e ficamos ancorados
numha água ancorada
en um val ancorado.

o céu crava-se no fundo
iluminando
os molhados
carvalhotes de antano
que se derrubam
demorados
na escuma transparente
que os envolve.

III.

memória habitada
tempo findo das avós
que contam de ti
Carvalheira do Rei
dona doutras idades
quando eras o fogar
a lareira a corte o alpendre
e cresceches essa feira
dia de santos
cavalos gado polbeiros
quando os moços mais garridos
temiam entrar-te
sem o sol do luar
espessura medonhenta.

velhinha que mirra e se desfaz
deixando de seres ti
para serdes vós
carvalhos carvalhotes
ergueitos com orgulho
e sós
presidindo esta agonia
de lembranças sem porvir.

[fresca terra que me nasceu
a golpes de mar e areia
crescendo-me cara o céu
alçando-me forte e eterna.
seme de todas as árvores som eu,
carvalhos bidos azinheiras
é a saiva que o antes me deu
água mesta e mistureira.]



que farei eu agora?
que cantarei eu
orfa de jogos e recordos
de lugares aquelados aos meus sonhos?
que vou fazer agora da minha infância
do meu futuro?
aonde levarei os filhos que nom terei?
a que moínho se nom está?
a que fentos cavernários?
a que castrinho?
a que passado se foi arrasado
com escavadoras
camions de cascalhos
e apisoadoras de progresso?

IV.

ouh sim
fala-nos do mar
marinheiro
de gavotas relingas
gradicelas sargaços
daquele pailebote branco
do capitám abraçado
ao búzio e o cachimbo


para nom caermos
enganados
acreditando oceano
o val profundo
que por decreto nos regalam
aqueles que o anegam
e apontalam.