de seguires o caminho do vede subindo por curantes
até os altos de fraíz podes contemplar a lagoa sacra.
dizem que há séculos, em tempos dos mouros,
houve um grande longo e sanguinoso combate
na gândara que se estende nestas cimas de olives.
uns dizem que carlomagno foi aqui acabado;
outros dizem que foi ele que venceu um mamede
ou um almançor. o caso é que avós de avós
tenhem encontrado, juro-vos, gastos capacetes
espadas comestas de ferrugem crânios furados
por toda esta alargada branha de gestoso.
dizem que foi tal a matança o sangue verquido
a desolaçom em campos valados lavouras
que todos os cadáveres foram soterrados
sob as terras e águas que ante ti se estendem
aqui no alto, ao sopé da mámoa do boimorto.
e dizem que a lagoa sacra nom seca nunca
porque no fundo das suas águas encorgadas
dormem calmas as lajas do velho cemitério.
dizem outros que essas lajas nom som lajas
mas perpianhos traves pedras colunas
que erguiam umha vila doutras idades.
antioquia dizem uns que era, valverde
eimil ou duio a fermosa dizem outros.
dizem que tam soberbos foram aqueles
que a habitaram, tam crueis e infieis,
que este nosso deus humilde clemente
provou em secreto dos vilegos a bondade:
enviou um velho esmoleiro, jesus cristo
ou noé dizem uns que dizem que era.
ninguém lhe deu pousada. só a casa
mais pobre do mais miserável bairro.
decidiu a ira divina na lama afundir
a cidade por isto ou por nom acolher
os bois da raínha lupa, segundo digam
os uns ou os outros, que todos dizem
mas ninguém sabe. a lagoa nunca estinha
para nom libertar penados. dizem também
que algumhas noites pode ser escuitado
o dindondám das campás o canto do galo.
mas eu vim a lagoa seca. há três anos.
sem água segue. e nom há lajas, nom há
campa nom há telhados de cidades
ardidas em sangue e podredume.
só urzes gestas pequenos pintafontes.
* foto da Lagoa Sacra de Olives de Toño Barbeito