Memoria

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Faite seareiro

Somos parte de



Susana Sánchez Aríns

Autora do poemario "[de]construçom" 
XXIPremio Nacional de Poesía Xosé Mª Pérez Parallé
Profesora de ensino secundario, participou activamente na dinamización da vida sociocultural estradense, especialmente na súa etapa á fronte da Asociación de Tempo Libre Mistura.

Canto do encoro

Publicado a 31/01/2010 02:44 por A. C. Vagalumes Tabeirós-Terra de Montes   [ atualizado a 31/01/2010 02:54 ]

I .
canto um mar
que nom possuo
umhas águas que nom tenho
rapariga que som de terra adentro
mocinha da montanha montanhesa.

deveria cantar
fragas e veigas
encostas e abas de montes pardos
os cúmios que encirram horizontes
domeados como bestas e rapados.

deveria cantar
o som do vento
entremetido entre árvores e rochas
e nom a aireja azul que arrinca as velas
do cerne de si mesmas e das conchas.

esse ar mareiro
que canto
esse mar que canto e desconheço.

II.

por decreto nos regalam
a um mar inexistente
um mar carregado de mofo
de verdete
algas abafantes

//un mar//


atrapado entre cimentos
o oceano
afogando os lentos peixes
de topetadas em muros limitados
sem espelhos.

por decreto nos regalam
a um mar
e nom queremos
porque nele os barcos
apodrecem
ao ver-se encostados
na linha celeste


que este mar
é mar de achicadura
sem espaço para a viagem
descoberta.



por decreto nos regalam
a um mar
e ficamos ancorados
numha água ancorada
en um val ancorado.

o céu crava-se no fundo
iluminando
os molhados
carvalhotes de antano
que se derrubam
demorados
na escuma transparente
que os envolve.

III.

memória habitada
tempo findo das avós
que contam de ti
Carvalheira do Rei
dona doutras idades
quando eras o fogar
a lareira a corte o alpendre
e cresceches essa feira
dia de santos
cavalos gado polbeiros
quando os moços mais garridos
temiam entrar-te
sem o sol do luar
espessura medonhenta.

velhinha que mirra e se desfaz
deixando de seres ti
para serdes vós
carvalhos carvalhotes
ergueitos com orgulho
e sós
presidindo esta agonia
de lembranças sem porvir.

[fresca terra que me nasceu
a golpes de mar e areia
crescendo-me cara o céu
alçando-me forte e eterna.
seme de todas as árvores som eu,
carvalhos bidos azinheiras
é a saiva que o antes me deu
água mesta e mistureira.]



que farei eu agora?
que cantarei eu
orfa de jogos e recordos
de lugares aquelados aos meus sonhos?
que vou fazer agora da minha infância
do meu futuro?
aonde levarei os filhos que nom terei?
a que moínho se nom está?
a que fentos cavernários?
a que castrinho?
a que passado se foi arrasado
com escavadoras
camions de cascalhos
e apisoadoras de progresso?

IV.

ouh sim
fala-nos do mar
marinheiro
de gavotas relingas
gradicelas sargaços
daquele pailebote branco
do capitám abraçado
ao búzio e o cachimbo


para nom caermos
enganados
acreditando oceano
o val profundo
que por decreto nos regalam
aqueles que o anegam
e apontalam.

liçom de história

Publicado a 14/10/2009 16:23 por A. C. Vagalumes Tabeirós-Terra de Montes   [ atualizado a 15/10/2009 23:26 ]


de seguires o caminho do vede subindo por curantes
até os altos de fraíz podes contemplar a lagoa sacra.

dizem que há séculos, em tempos dos mouros,
houve um grande longo e sanguinoso combate 
na gândara que se estende nestas cimas de olives. 
uns dizem que carlomagno foi aqui acabado; 
outros dizem que foi ele que venceu um mamede
ou um almançor. o caso é que avós de avós 
tenhem encontrado, juro-vos, gastos capacetes 
espadas comestas de ferrugem crânios furados
por toda esta alargada branha de gestoso.
dizem que foi tal a matança o sangue verquido 
a desolaçom em campos valados lavouras
que todos os cadáveres foram soterrados
sob as terras e águas que ante ti se estendem 
aqui no alto, ao sopé da mámoa do boimorto.
e dizem que a lagoa sacra nom seca nunca
porque no fundo das suas águas encorgadas 
dormem calmas as lajas do velho cemitério.

dizem outros que essas lajas nom som lajas
mas perpianhos traves pedras colunas
que erguiam umha vila doutras idades.
antioquia dizem uns que era, valverde 
eimil ou duio a fermosa dizem outros.
dizem que tam soberbos foram aqueles
que a habitaram, tam crueis e infieis,
que este nosso deus humilde clemente
provou em secreto dos vilegos a bondade:
enviou um velho esmoleiro, jesus cristo
ou noé dizem uns que dizem que era.
ninguém lhe deu pousada. só a casa 
mais pobre do mais miserável bairro.
decidiu a ira divina na lama afundir
a cidade por isto ou por nom acolher 
os bois da raínha lupa, segundo digam
os uns ou os outros, que todos dizem 
mas ninguém sabe. a lagoa nunca estinha
para nom libertar penados. dizem também 
que algumhas noites pode ser escuitado
o dindondám das campás o canto do galo. 

mas eu vim a lagoa seca. há três anos.
sem água segue. e nom há lajas, nom há 
campa nom há telhados de cidades 
ardidas em sangue e podredume.
só urzes gestas pequenos pintafontes.

* foto da Lagoa Sacra de Olives de Toño Barbeito

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